SÉRIE

 

I

 

INSPIRAÇÃO CIENTÍFICA

 

“Na verdade, a imaginação não passa de um modo de memória,

emancipado da ordem do tempo e do espaço. “

- Samuel Taylor Coleridge -

 

Uma Introdução:

 

 

             É da natureza da mente humana pensar, criar e formar novas ideias. O percurso do nascimento de algo de novo passa pela criação da ideia teórica, do seu reconhecimento até à sua consolidação. O ponto central deste modelo é o cérebro, cujo trabalho consiste em percepcionar os estímulos exteriores, dedicando a maior parte do seu tempo a essa actividade e à percepção de tudo o que o rodeia, assimilando continuamente informação. Esta forma de progresso intelectual pode sugerir que a inteligência estará, de alguma forma, relacionada com uma boa memória. Defendendo este estatuto, diríamos que, só quem disponha de uma capacidade elevada de armazenamento de informação pode oferecer ao seu cérebro um nível mais elevado de entendimento e conhecimento.

             Actualmente, a reflexão acerca do domínio da inteligência e da genialidade tem atraído muitos investigadores que afirmam e constatam que a capacidade de memória dos génios, meninos-prodígio, ou pessoas altamente dotadas, está extraordinariamente bem desenvolvida. No meu entendimento, não considero que o talento esteja directamente relacionado com a capacidade de memorização. Naturalmente que este campo de investigação, que pretende saber o que faz com que certas pessoas desenvolvam extraordinários talentos, suscitará diversas opiniões e acesas controvérsias.

             A ideia da proximidade da genialidade pode ser resumida ao conceito de QI ( Quociente de Inteligência; Coeficiente Intelectual ). O coeficiente de inteligência surge como um prático indicador do desenvolvimento intelectual, sendo que, actualmente, a medida média da inteligência humana encontra-se no valor 100 e a totalidade máxima deste potencial pode atingir os 200 valores. Uma pessoa com um QI acima de 140 já será considerada como sendo altamente dotada. Entre os fundadores da medição empírica da inteligência encontra-se Francis Galton ( um primo de Charles Darwin ). Aos dois anos e meio Galton já conseguia ler diversas obras; aos oito anos assistia a aulas destinadas a alunos do secundário; aos quinze anos ingressou em Medicina. De acordo com estes dados, Galton teria um QI próximo de 200!

             Em meados do séc. XIX foi conduzida uma investigação que escolheria uma amostra de trezentos homens e mulheres célebres da época para se averiguar qual o seu coeficiente de inteligência.

Resumindo, a classificação para as dez primeiras personagens geniais da História foi a seguinte: 1 – John Stuart Mill; 2 – Goethe; 3 – Leibniz; 4 – Grotius; 5 – Macaulay; 6 – Bentham; 7 – Pascal; 8 – Schelling; 9 – Haller; e por último, mas não menos importante: 10 – Coleridge.

Em conclusão ao que diz respeito à inteligência e à capacidade intelectual, há pelo menos um consenso entre a maioria dos investigadores. Citando Dietrich Schwanitz « A inteligência não é tudo. O que tem de se lhe juntar é a criatividade.».

O papel das múltiplas inteligências, da imaginação e da criatividade é fundamental para a criação de novas ideias e para o desenvolvimento de toda a forma de conhecimento. A árvore do conhecimento deve ser constituída por diversos ramos e troncos de sólida informação; de folhas criativas e flexíveis que permitirão assimilar novos dados; e de flores, de exótica originalidade que exprimem o nascer de uma nova ideia.

Se pudesse haver lugar acerca da importância da Imaginação e da Inspiração no desenvolvimento da Teoria do Conhecimento; de como esta componente de criatividade é a única que permite ver aquilo que não está claramente à vista e ao alcance de um entendimento imediato; que é a única capacidade que nós temos que permite reunir ideias aparentemente díspares e divergentes, reunindo-as, interligando-as e estabelecendo com elas uma relação; como somente os criativos são as únicas pessoas capazes de combinar o que possa parecer absolutamente contraditório para qualquer outro observador ou para uma mente mais singela e menos flexível; como somente estes não se deixam impressionar ou intimidar por ideias opostas, juízos divergentes, conceitos assimétricos, ciências contraditórias. O olhar de uma mente criativa não vê somente a imagem da complexidade. Substancialmente, a visão de todo este ‘caos’ resulta para a mente de um criador como um estímulo.

Voltando a atenção para a questão da dualidade Imaginação/Inspiração e o seu papel no desenvolvimento da epistemologia e da investigação em ciência, poderíamos começar por referir que a mente humana não é capaz de pensar sem imagens. O valor e o poder da Imagem é já há muito referido. Desde a Física Aristotélica que este procedimento mental faz parte de todas as formas de pensamento e é responsável pela representação inteligível das coisas. A Imaginação pode ser entendida como uma forma de representação de algo que sentimos não existir no nosso mundo, ou que apenas existe no nosso mundo mental. A imagem mental e o seu significado, mantêm-se sempre intimamente ligados ao conceito de imaginação.

Os primeiros grandes teóricos a abordarem este conceito, Freud e Jung, reportaram a imaginação como uma força criadora que tanto pode agir no campo do consciente como do inconsciente. A literatura do séc. XVIII não deixou de realçar o poder criador da imaginação como uma actividade essencial da criação artística. O Romantismo europeu trabalhou o conceito de imaginação até à exaustão.

Um dos pioneiros a formular uma nova teoria da imaginação foi o inglês Samuel Taylor Coleridge ( 1772-1834 ), apresentando este conceito como um caminho privilegiado para o conhecimento e como uma alternativa, subjectiva, para alcançar outras formas de conhecimento. A crença de Coleridge era tão intensa que culminou na comparação do poder da imaginação ao poder criador de Deus.

O séc. XX legou-nos mais resultados acerca da Imaginação. Sintetizando, a origem do acto imaginado interessou menos do que o imaginado em si; o que interessa ao artista é a exploração dos limites da imaginação. O espaço criativo da consciência passa a ser então um lugar dinâmico e convidativo.

Algumas reflexões sofre a génese deste conceito são exploradas em L’Imagination, pelo filósofo Jean Paul Sartre. A imaginação poética é considerada também como uma forma de auto-análise, uma vez que o imaginado tem sempre grande proximidade com as experiências pessoais reais do artista, do escritor, ou do cientista.

A inspiração e intuição funcionam como um guia mágico em que ideias absurdas, pensamentos impensáveis, ajudam nas considerações e conclusões do intelecto. Desta forma, o exercício da imaginação não deverá ser restrito à Literatura ou à Arte. Este processo e modo de actividade mental pode e deve ser estendido à Ciência.

Esta força da mente é, certamente, um dos actos mais livres e grandiosos do entendimento humano e uma fonte de inspiração sem limites. Sem ela nunca teríamos tido a oportunidade de contemplar obras tão singulares como as de, por exemplo, Fernando Pessoa e seus heterónimos. Mas este escritor - hoje em dia mundialmente reconhecido - nunca chegaria a assistir à publicação das suas obras. Somente um dos seus trabalhos foi aceite para publicação durante toda a sua vida!

Segundo o discurso de um poeta-génio, e, nas suas próprias palavras, parece-nos que ele compreendia que não compreendiam …

 

« Ora, o génio está precisamente na mesma situação que a geração seguinte (…) está em oposição à época em que vive. Existe uma coincidência entre a função de um génio e a função da época que lhe sucede. (…) Este homem torna-se, assim, simultaneamente criador e filho da época seguinte.

Os homens de génio ou se tornam célebres na sua própria época – por também possuírem talento ou argúcia – ou, não os possuindo e sendo, por isso, desprezados pela sua época, tornam-se célebres na época seguinte. »

 

FERNANDO PESSOA – A Imortalidade –

 

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