SÉRIE

 

II

 

INSPIRAÇÃO GENUÍNA

 

“ Ardo como um fogo sagrado quando penso nelas

e sinto que nunca me cansarei de as repetir.”

         - Johannes Kepler -

 

Uma Introdução:

 

 

Como em qualquer Enigma da Ciência o papel do investigador é fundamental. A resolução do Problema por parte do investigador só é possível se este possuir uma ideia minimamente clara da ordem que espera na realidade observada. A Teoria só é possível se existir uma ordem de ideias previamente formulada. Sem esse modelo, a informação isolada é desprovida de qualquer significado complementar. Pois para qualquer outro observador todas essas informações mais não são do que uma enciclopédia de factos. E, apesar destes se encontrarem disponíveis e ao alcance da mente de qualquer observador, esses não lhes conseguem identificar qualquer relação ou ligação.

Conhecer, saber e compreender são conceitos muito distintos. Existe uma diferença muito grande entre o livro impresso, o livro lido e o livro compreendido. Fazendo uso das palavras de Henri Poincaré: “ Um monte de tijolos não é uma casa.”.

A dedução e a indução são metodologias importantes, e utilizadas como formas de pensar em Ciência.

As implicações lógicas do método dedutivo, que partem do conhecimento geral para o particular, transformam continuamente a ciência, apelando ao constante aperfeiçoamento e aprofundamento do conhecimento até ao pormenor. Este método parte de uma conexão lógica descendente, baseando-se num raciocínio aplicado a uma Lei Primordial que se considera verdadeira ( Axioma ) e a partir dela, desdobram-se outras implicações (demonstrações e deduções ).

A dedução por si só é um método que só serve para garantir o rigor do caminho lógico seguido pelo pensamento; mas não é, para além disso, uma forma que permita obter conhecimentos adicionais. Na verdade, esta forma de pensar é muito pouco produtiva e conduz a resultados limitados e quase estéreis, visto que, podemos considerar que as leis demonstradas são meramente repetitivas e que estas apenas constituem aplicações particulares da Ideia Geral, uma vez que toda a informação demonstrada já estava implicitamente contida.

Já o método indutivo será mais produtivo, pois proporciona a reflexão sobre a ciência. A indução será uma forma de pensar com mais capacidade e potencial para desenvolver o campo do conhecimento. A pesquisa científica indutiva faz uso de toda a estrutura cognitiva do cérebro e de toda a informação assimilada. Este método, que parte do particular para o geral, estimula mais descobertas, proporciona novas informações, abre novos caminhos e descobre direcções imprevisíveis no ramo do conhecimento. Na metodologia científica indutiva a conexão é ascendente, cuja estrutura baseia-

-se nos seguintes pressupostos: observação do fenómeno; descoberta da relação entre os fenómenos; generalização e enquadramento deste fenómeno e sua relação com uma lei já conhecida ou formulação de uma nova lei fundamental.

A indução, ao contrário da dedução, não progride somente pela relação entre as ideias e os conhecimentos teóricos, mas considera que o conhecimento deve ser fundamentado na experiência e na observação directa dos acontecimentos e factos da realidade concreta; não interpretando os dogmas pré-estabelecidos como inderrubáveis, defendendo que o teste de todo o conhecimento reside na experiência. 

A verdadeira Teoria científica muitas vezes debruça-se e confunde-se, conscientemente ou inconscientemente, sobre todos estes conceitos e métodos. A epistemologia, palavra derivada do grego ( epistémé para ciência e logos para discurso ), define-se como o estudo do saber e uma reflexão sobre a teoria do conhecimento.

 A epistemologia é necessariamente de natureza interdisciplinar e de parâmetros flexíveis. Dentro de certos limites, o teórico ou o cientista pode inventar uma nova palavra ou modificar ligeiramente um conceito, de modo a poder utilizá-lo e adaptá-lo como melhor argumento para defesa da sua ideia, da sua hipótese ou da sua teoria. Nas suas ferramentas podemos então incluir a própria Metafísica. O termo metafísica advém igualmente do grego ( meta para além ou depois e phusiké para Física ou Natureza ), sendo que, esta forma de busca do conhecimento não deve ser considerada como uma não ciência. Se a própria palavra metafísica significa ‘além do físico, do material’, então, esta forma de conhecimento debruça-se sobre o plano daquilo que não está ao alcance da experiência material, como tal, pretende atingir o plano da abstracção e, por isso, pode ser considerada como uma Ciência da Imaginação. A Metafísica é imaterial, intocável, só existe no mundo das ideias e do abstracto. Esta é uma disciplina que não procura o conhecimento em si, mas antes o entendimento do conhecimento. A metafísica propõe um discurso que se eleva para além de toda a experiência possível e, por isso, não pode estar ligada a qualquer experiência em concreto. A Metafísica constitui uma nova linguagem de conhecimento, e esta desenvolve-se desprezando a ligação ao mundo empírico, as exigências da compreensão e do sentido atribuído pela consciência real dos homens. Toda a ciência metafísica é elaborada a partir da ideia, onde o pensamento é o único acto privilegiado e verdadeiramente livre. Embora o conceito do real não seja o seu objecto de estudo, também não se trata de uma forma de conhecimento transcendente. O nosso cérebro, muito diferente de um computador, age em liberdade, faz uso da opção, da escolha, da imaginação e da intuição. Conceitos estes que nenhuma dedução científica conseguirá programar. No limite da Física encontra-se uma fronteira com a Metafísica.

Contudo, durante todo este percurso existe sempre uma prioridade: aquilo que o investigador incessantemente procura são sempre os factos decisivos para a confirmação, ou negação, da sua teoria. O dogma sagrado da Metodologia Científica é a procura da verdade.

 

 

             « (…) aos verdadeiros, aos verdadeiramente únicos pensadores, aos homens instruídos de ardente imaginação. Estes últimos – os nossos Keplers, os nossos Laplaces – especulam, teorizam; são estes os termos. (…) Os Keplers, repito, especulam, teorizam e as suas teorias são apenas corrigidas -reduzidas- limpas, a pouco e pouco, da sua camada de inconsistência até, finalmente, surgir uma consistência inabalável, uma consistência que o mais obstinado admite, porque é uma consistência, como sendo uma verdade absoluta e inquestionável.

             Penso com frequência, meu amigo, que estes dogmáticos de há mil anos se terão espantado em determinar por qual das suas duas afamadas estradas (…) guiou a humanidade por essas importantes e inumeráveis verdades (…) em especial, esses intolerantes teriam sentido alguma dificuldade em determinar por qual dos seus dois caminhos foi atingida a mais momentosa e sublime de todas as suas verdades – a verdade, o facto, da Gravitação. Newton deduziu-a das Leis de Kepler. Este admitiu que intuiu essas leis – essas leis cuja investigação revelou aos maiores dos astrónomos britânicos esse princípio, a base de todos os princípios físicos ( existentes ) por detrás dos quais entramos no até então nebuloso reino da metafísica. Sim! Essas leis vitais foram intuídas por Kepler, isto é, ele imaginou-as. Se lhe tivessem pedido que indicasse por qual das vias, a dedutiva ou a indutiva, chegou a elas, a sua resposta talvez fosse: ‘Não percebo nada de vias, mas conheço a Mecânica do Universo. Ei-la. Captei-a com a minha alma, cheguei a ela através da intuição’. Ah! Pobres ignorantes. Talvez algum dos metafísicos lhe pudesse ter dito que aquilo a que ele chamava ‘intuição’ não passava da convicção resultante de deduções ou induções, cujo processo era tão nebuloso que lhe teria escapado à consciência, iludido a razão ou desafiando a sua capacidade de expressão. Que pena que nenhum ‘filósofo moral’ o tenha iluminado sobre tudo isto!

             (…) Sim, Kepler foi essencialmente um teórico. Mas este título, agora de tanta santidade, era, nesses dias, uma designação de supremo desprezo. Só agora é que os homens começam a apreciar esse divino ancião (…) ».

 

EDGAR ALLAN POE – Eureka –

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