SÉRIE

 

III

 

SEM INSPIRAÇÃO

 

“ Imaginar é elevar o real um tom.”

- Gaston Bachelard -

 

Uma Introdução:

 

 

Para que haja arte, ou qualquer forma de criação, poderá dizer-se que tornar-se-á indispensável uma única exigência: o poder da inspiração. Na falta deste ingrediente haverá alturas em que o escritor, artista ou cientista, simplesmente sentirá uma inércia nas suas acções que afectará toda a sua produtividade. Na ausência de qualquer forma de desenvolvimento o autor descobre a presença desta lacuna que se associa à falta de imaginação, inspiração, momentos em que deixam de surgir novas ideias ou simplesmente falta de criatividade. Nestas alturas haverá sempre dois conceitos a ter em mente, que poderão ajudar a ultrapassar este obstáculo e continuar com a produção da sua tarefa. Algumas reflexões a ter em conta e que constituem dois pilares de extrema importância em qualquer processo de evolução e criação, repercutem-se na natureza e significado das seguintes palavras: Transdisciplinaridade e Intertextualidade. Estes dois conceitos mantêm activos de forma consciente um método para ‘conhecer’ e igualmente a sua relação com o ‘dar a conhecer’ e garantem a linha da continuidade.

Para uma Ciência da Arte Criativa é necessário referirmo-nos à Transdisciplinaridade. Esta nova disciplina propõe algo de novo: para se poder conhecer alguma coisa, é preciso conhecer tudo! A Transdisciplinaridade propõe o diálogo entre todas as formas do saber, entre todas as ciências, disciplinas e sub-disciplinas, apresentando-se como um novo conceito audacioso, capaz de abordar simultaneamente, por exemplo, a Matemática e a Filosofia; a Física e a Arte.

A pluridisciplinaridade diz respeito ao estudo de um objecto de uma única disciplina por várias disciplinas ao mesmo tempo. No sentido de caminhar ao encontro de uma harmonia entre as diversas mentalidades, conhecimentos e saberes, tornou-se indispensável criar laços entre as diferentes disciplinas. Esta forma de conhecimento tem como finalidade a compreensão total, a unidade do conhecimento, a sabedoria absoluta. A pesquisa transdisciplinar torna-se complementar e essencial à compreensão do todo. Para podermos conhecer os problemas da Cosmologia, não podemos esquecer a Física Quântica, embora os objectos de estudo destas diferentes disciplinas nos pareçam distintos e estejam aparentemente bem delineados.

 O termo transdisciplinaridade foi somente introduzido em finais do séc. XX por Jean Piaget, porém, na divulgação desta nova disciplina há que mencionar o nome de Basarab Nicolescu, um físico teórico pioneiro nos estudos interdisciplinares.

A autora de referência obrigatória quando se fala de Intertextualidade é Julia Kristeva. Sendo o texto um objecto cultural, a intertextualidade é uma relação entre textos e, por isso, representa a interculturalidade.

Um só texto é um local de encontro de diversos textos, pois nele estão contidos e implícitos uma multiplicidade de outros textos. Nessas leituras anteriores, o escritor primeiramente assimilou e absorveu outros conteúdos, apreendeu outras palavras, memorizou outras informações e a sua produção literária final reflecte todas essas influências. Cada escritor é uma actualizador da sua própria memória literária e a sua composição final, muitas vezes, mais não é do que uma recomposição, reorganização, relação e co-presença de diversos textos, uma escrita sobre a escrita. Desta forma, e citando Julia Kristeva: “ Todo o texto se constrói como um mosaico de citações; Todo o texto é absorção e transformação de um outro texto.”.

Neste sentido, o conceito de intertextualidade oferece uma crítica à visão da obra literária. Num texto ou numa obra supõe-se que o autor é o seu único criador mas a intertextualidade defende exactamente o oposto. Em todo o texto intervêm distintos autores, implicitamente ou explicitamente revelados. Nesse sentido põe-se em causa a obra literária como sendo absolutamente original, bem como a classificação dos poetas-génio.

Se o texto mais não é do que um misto de novidade e continuação; um processo de evolução em que o antigo e o novo co-habitam e coexistem; um universo de palavras que permite estabelecer contacto com outras épocas, autores, valores e conhecimentos; então, qualquer texto deverá ser destacado, não pelo seu autor, não pelas suas palavras, mas sim por todo o universo que revelam. São relações contextuais recriadas, reimaginadas, reformatadas num novo texto mais importante para o autor, com o qual este se identifica. Neste processo apenas alguma informação é destacada, apenas alguns dados são escolhidos e os restantes deixados à sombra. Mas um novo texto representa sempre a imaginação do autor, nele é introduzido um novo estilo e recriada uma nova importância para um tema e gerada uma nova mensagem.

Sobretudo, a valorização da criação literária, artística ou científica deverá ser destacada por estabelecer uma permanente ligação com outros escritores, com outros tempos, com outras ideias. Porque um livro remete a outros livros e, por isso, deixa que continue activo e vivo o contínuo diálogo entre o autor e o leitor.

Sendo as nossas obras os únicos testemunhos dos nossos pensamentos; os nossos escritos, as nossas ideias, são a única parte que permanece para além da vida e a única confirmação da nossa existência. A obra de arte, de existência quase infinita no tempo, aspira por uma vida perpétua, ao contrário da nossa que se extingue.

 

A Arte continua a fazer aquilo que sempre fez: reflectir a percepção do mundo exterior através da perspectiva do artista, revelando processos internos da mente desse mesmo artista e a sua visão do mundo que o rodeia. Numa constante redescoberta, em que a imagem do visível e do invisível é captada, transformada e elevada a um limite máximo. Deixando transcrever, mesmo que apenas subtilmente, aquilo que o Homem pôs nela intencionalmente, numa composição que obedece a uma lógica pessoal extremamente profunda e até mesmo inconsciente.

A única alteração dos estilos artísticos consiste na exigência de uma permanente inovação e originalidade. Desde sempre que o Homem se tem interessado pela arte; não havendo nenhuma excepção a esta regra, talvez nunca tenha existido uma época tão apaixonada como a nossa. Desde o Romantismo do séc. XIX que se tem assistido a uma constante alteração de séries de movimentos e contra-movimentos. O mundo das artes apresenta-se numa atitude de permanente mudança. Só nos finais do séc. XIX e primeira metade do séc. XX tiveram origem mais movimentos artísticos, muitos ‘ismos’, do que em todos os restantes períodos anteriores: Realismo; Impressionismo; Expressionismo; Cubismo; Surrealismo; Futurismo, etc.! A acrescentar, outro movimento importante do séc. XX que consiste na noção de ‘Vanguarda’, definido como o grupo de pessoas que em termos de trabalho, estilo de vida e pensamentos, estão avançadas em relação à época em que vivem. Numa perspectiva de uma psicologia da história da arte, a imagem pode surgir como um meio para comunicar e transmitir uma mensagem de harmonia e beleza ou, pelo contrário, de choque e revolta, uma forma de despertar consciências, exigindo a acuidade, atenção e sensibilidade do espectador e do crítico, de modo a que esta possa ser correctamente interiorizada, apreciada, e julgada.

Aquilo que o artista cria, o crítico interroga e analisa. De um retira-se uma realidade íntima e uma obra que nasceu fruto dos sentidos. Enquanto que o outro desce até às fontes da criação e tenta conceber, compreender, analisar e tornar lúcido tudo o que alimentou a obra do artista, tudo o que a propulsionou, qual a sua génesis e causas dessa força. Se o artista tivesse dispensado algum tempo a fazer esse trabalho, teria perdido o seu impulso e os seus instintos naturais e a obra de arte ter-se-ia esterilizado. Contudo, a arte é sempre uma manifestação indissociável do corpo, da alma e da mente consciente, porque: “A pintura é uma poesia visível” – Leonardo da Vinci -.

A ideia do génio individual não é uma ideia nova. Se nos lembrarmos, por exemplo, de Miguel Ângelo e novamente de Leonardo da Vinci, cujas obras eloquentes iriam irrevogavelmente resistir à erosão das convenções e tradições; estes, são exemplos de como os trabalhos de um bom artesão não são produções efémeras, associadas a vertentes artísticas, modas e estilos de época. Porque uma novidade incessante pode acabar por tornar-se cansativa … mas o trabalho de um bom artesão, pelo contrário, dura para sempre.

Como conclusão, é necessário compreendermos que a Ciência, a Arte, e a Filosofia não são estranhas umas às outras. Na verdade, estas disciplinas têm muito em comum e enriquecem-se mutuamente. Podemos recordarmo-nos que foi da Filosofia que nasceu a própria Ciência. A Filosofia, a Arte e a Ciência, todas estas áreas se defrontam com várias questões essenciais à nossa existência, explorando o conhecimento e a existência humana. Dessa forma pretendem alcançar uma compreensão muito mais profunda; sendo que, todas elas fazem uso perpétuo do pensamento, da reflexão e da inspiração. E, apesar de aparentemente seguirem caminhos distintos, o objectivo final é comum e sempre o mesmo: divulgar e partilhar todas as suas criações, conceitos e descobertas.

A Intertextualidade e a interdisciplinaridade podem surgir como uma ferramenta e como motor para uma fonte de inspiração mas talvez tudo isso seja dispensável porque talvez o único ingrediente essencial para essa combinação seja simplesmente a necessidade imperativa de criar:

 

“ A obra de arte nasce da necessidade. É esta origem, e nada mais, que determina o juízo do seu valor. Por esta razão, caro Senhor, não posso dar-lhe outro conselho para além deste: entre dentro de si e sonde as profundezas donde brota a sua vida; é nessa fonte que encontrará a resposta à pergunta: tenho de criar? Admita a resposta, qualquer que ela seja, sem a interpretar. Talvez venha a descobrir que nasceu para ser artista. Nesse caso, aceite o seu destino, carregue o seu peso e grandeza, sem perguntar por proveitos que possam vir de fora. Pois o criador tem de ser um mundo para si mesmo, tem de encontrar tudo dentro de si e na Natureza a que se uniu.”.

 

 RAINER MARIA RILKE – Cartas a um Jovem Poeta -

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